Recomenda-se a quem tenha de descer a actual Rua Dr. Barbosa de Castro, vindo da Cordoaria para as Virtudes, que deva quedar-se no passeio do lado direito (para quem desce, claro), mais ou menos a meio, e daí olhar para os telhados dos prédios da frente.

Acusando as vicissitudes nas cicatrizes dos restauros e múltiplas adaptações, lá está o que resta do pano da muralha fernandina que por ali corria, desde a Porta do Olival até à Porta das Virtudes e ao qual se encostaram as traseiras das casas das ruas do Dr. Barbosa de Castro e das Taipas.

As duas artérias corriam, paralelas, uma da parte de fora, outra no interior do muro gótico, como também é conhecida a muralha fernandina, que começou a ser construída em 1336, em tempo de D.Afonso IV, e só ficou pronta 38 anos depois, em 1374, quando reinava um neto daquele, D.Fernando, de cognome "O Formoso".

Quando, por meados do século XVIII, os muros começaram a ser derrubados para permitir a expansão do velho burgo para os modernos bairros de Cedofeita, do Bonfim e de Santo Ovídio, o lugar por eles deixado vago foi de imediato ocupado com novas construções, à excepção dos troços das Virtudes e da Cordoaria Velha em que se levantaram casas encostadas à muralha.

A rua que tem o nome do Dr.Barbosa de Castro, advogado e antigo presidente da Câmara do Porto, é muito antiga. Em tempos muito recuados deve ter sido um dos caminhos que corria ao longo da muralha. Antes da actual designação chamou-se Rua do Calvário. É com esta denominação que, em 1679, aparece indicada num registo paroquial da freguesia de Santo Ildefonso. Quarenta e cinco anos depois surge referenciada como a Rua do Calvário Novo. Já vamos ver porquê.

Chamou-se Rua do Calvário porque, em tempos idos, as cruzes de uma Via Sacra estiveram por ali arvoradas. E a especificação do "Calvário Novo" justificava-se para diferenciar este sítio de um outro, a actual Praça Guilherme Gomes Fernandes, onde esteve um outro Calvário. chamado velho, por ser muito mais antigo.

A profunda religiosidade dos portuenses

Tudo isto acontecia numa época em que a cidade do Porto era profundamente religiosa e, quem o diz é Alberto Pimentel, "rezava, à noite, a ladainha de casa em casa, em voz alta, com os vizinhos".

As grandes festas religiosas como a Senhora das Dores nos Congregados, a Sanra Clara no Bonfim, as procissões de penitência e as vias sacras foram sempre manifestações de fé muito do apreço e do agrado dos portuenses que nunca faltavam aos actos religiosos e estavam igualmente sempre presentes nos divertidos arraias profanos que normalmente rodeavam essas festas.

Um exemplo concreto da profunda religiosidade dos portuenses dos séculos XVIII e seguinte está patente, logo à entrada da antiga Rua do Calvário, na capela das Almas de S.José das Taipas. Foi mandada construir em 1666 por Pantaleão Pacheco e sua mulher, Isabel da Silva, para lembrar a memória de um filho do casal, José Pacheco, que morreu muito jovem.

Outro exemplo, porventura menos conhecido mas nem por isso menos significativo, encontrémo-lo numa edícula que aparece na fachada do prédio número 48, à altura do primeiro andar, onde se venera a imagem de Santo António.

A Rua Dr.Barbosa de Castro (afinal, é esta a sua designação oficial!) só adquiriu o aspecto que agora tem a partir dos finais do século XIX. Até lá era uma artéria que ainda não estava bordejada por prédios na sua totalidade e de piso muito irregular. Aliás, este último aspecto está bem patente junto às frontarias das casas em cujas traseiras ainda se podem ver os restos da muralha. Essas moradias encontram-se num plano superior ao do nível geral da rua. Por uma razão evidente: antes do cerco do Porto (1832) havia nesta artéria, do lado esquerdo para quem desce no sentido da Rua das Taipas, um friso de casas que haviam sido construídas num piso superior e às quais se tinha acesso por meio de degraus de pedra. Essa espécie de varanda estava guarnecida com uma grade ferro que protegia as pessoas de caírem. Durante o Cerco os liberais montaram no Passeio das Virtudes uma bateria e utilizaram a pedra dos referidos degraus para construírem uma protecção.

Um dos bravos do Mindelo

Não podíamos terminar esta crónica sem uma referência ao nascimento nesta rua do insigne portuense Almeida Garret. O acontecimento deu-se no prédio com os números 37, 39, e 41 onde viviam os pais do ilustre escritor, que foram o selador mor da Alfândega, António Bernardo da Silva, e D.Augusta de Almeida Leitão. Almeida Garret, um dos sete mil e quinhentos bravos do Mindelo, que combateu no Cerco ao lado de D.Pedro IV, nasceu em 1799 e viveu naquela casa apenas até 1804, ano em que os pais, fugindo às invasões francesas, se mudaram para a Quinta do Castelo, em Gaia. A casa onde nasceu o nosso poeta romântico ainda não há muito tempo estava à venda. Façamos votos para que lhe não aconteça o mesmo que aconteceu à casa onde o escritor viveu em Lisboa.

Esta Rua do Dr.Barbosa de Castro acaba num dos mais belos miradouros da cidade - o Miradouro das Virtudes, ilustrado pelo seu mais representativo emblema, a Fonte das Virtudes, que só por si é credora de uma crónica inteira. Um dia destes, porque não?